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Furnas: lago criado para ser ‘caixa d’água do Brasil’ tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas'

Lago de Furnas tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' Quando o governador de Minas Gerais, José Francisco Bias Fortes, reagiu contra...

Furnas: lago criado para ser ‘caixa d’água do Brasil’ tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas'
Furnas: lago criado para ser ‘caixa d’água do Brasil’ tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' (Foto: Reprodução)

Lago de Furnas tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' Quando o governador de Minas Gerais, José Francisco Bias Fortes, reagiu contra a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, nos anos 1950, deixou registrada uma frase que atravessaria gerações: “Querem fazer de Minas a caixa d’água do Brasil”. Era um protesto político diante da inundação de cidades inteiras. Mais de seis décadas depois, a expressão ainda ajuda a definir a importância do Lago de Furnas e da hidrelétrica para a geração de energia no país. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram 📺De 30 de março a 10 de abril, o g1 Sul de Minas e a EPTV percorrem o Lago de Furnas na expedição especial “Travessia das Águas”, que mostra a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil. Além das reportagens especiais no portal e de conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, é possível acompanhar os bastidores da expedição em um diário de bordo em tempo real. 📹 Acompanhe em tempo real os bastidores da viagem Raio-x de Furnas 📍 Localização: Rio Grande, São José da Barra (MG) 👷Construção: 1958 (início das obras); 1963 (1ª unidade em operação) 🏭 Capacidade instalada: 1.216 MW ⚙️ Unidades geradoras: 8 🧱 Altura da barragem: 127 metros 🌊 Área do reservatório: 1.440 km² 🏙️ Municípios banhados: 34 O Lago de Furnas, criado com a construção da barragem no rio Grande, tornou‑se um dos mais importantes reservatórios do país. Com 1.440 km² de área, ele é mais de dez vezes maior em volume que a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e ocupa partes de 34 municípios, a maioria no Sul de Minas. Mais do que mudar a paisagem, o lago passou a ter papel estratégico no funcionamento do sistema elétrico brasileiro. “Furnas funciona como uma grande bateria hidráulica. Ela guarda água no período chuvoso e libera ao longo do ano. Cada metro cúbico que sai daqui gera energia em várias usinas em sequência", explica o professor Carlos Barreira Martinez, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). Furnas: lago construído pra ser caixa d'água do Brasil nos anos 60, tem 11x mais volume que a Baía de Guanabara e esconde 'cidades submersas' Divulgação Axia Energia Uma usina para evitar o apagão A hidrelétrica surgiu em um Brasil que enfrentava uma grave crise de energia. Entre 1951 e 1954, Rio de Janeiro e São Paulo passaram por racionamentos severos, com cortes diários no fornecimento de eletricidade. “Algumas regiões ficaram até sete horas seguidas sem luz. Havia estiagens sucessivas e as concessionárias estrangeiras não conseguiam acompanhar o crescimento da demanda", lembra o professor Paulo Brandi, da Memória da Eletricidade. Foi nesse cenário que o governo de Juscelino Kubitschek decidiu investir em um projeto sem precedentes. Furnas virou a primeira usina hidrelétrica brasileira a ultrapassar 1.000 megawatts de potência instalada, um patamar alcançado, à época, apenas por países como Estados Unidos, Canadá e Rússia. Juscelino Kubitschek durante visita ao canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Furnas Divulgação / Axia Energia A barragem de 127 metros de altura, erguida em um cânion natural do Rio Grande, criou um Reservatório pensado não apenas para gerar energia ali, mas para regular todo o sistema a jusante. “O objetivo era permitir que outras hidrelétricas funcionassem mesmo no período seco. Furnas foi desenhada como um estoque estratégico de água", explica Brandi. Cidades sob as águas O impacto social da obra foi profundo. Segundo o historiador Paulo Brandi, do Memória da Eletricidade, relatos dizem que a formação do lago atingiu cerca de 35 mil pessoas. Aproximadamente um quarto dos moradores precisou abandonar totalmente suas casas e propriedades. Ao todo, cerca de 5 mil propriedades rurais foram desapropriadas, muitas delas em áreas agrícolas férteis. “O distrito de São José da Barra foi completamente inundado. Em Guapé, a sede do município teve que ser reconstruída em outro local”, relata Brandi. Ruínas de antiga cidade aparecem em Guapé (MG) com baixa do nível da água em Furnas Reprodução EPTV O enchimento do reservatório, em janeiro de 1963, durou mais de um mês e foi descrito em relatos históricos como uma operação de guerra. “Ainda havia moradores, animais e objetos sendo retirados às pressas. Pessoas foram resgatadas de barco, balsas e até helicópteros", conta o historiador. Para o professor Carlos Barreira Martinez, da Unifei, o trauma foi grande, mas inserido no contexto da época. “Não era uma escolha entre o bem e o mal. Era a única alternativa viável. O Brasil não tinha petróleo, não tinha gás, não tinha energia nuclear. Sem energia hidrelétrica, o país não avançaria.” Construída no fim da década de 50 e início de 60, Furnas foi a primeira usina a superar 1.000 megawatts de potência Divulgação / Axia Energia De reservatório a motor econômico O Lago de Furnas nunca foi planejado como polo turístico. A função era exclusivamente energética. Mas, ao longo das décadas, a realidade mudou. Hoje, o reservatório impulsiona atividades como turismo náutico, pesca, piscicultura e lazer, movimentando a economia de dezenas de cidades do Sul de Minas. “A usina transformou completamente o perfil da região. Além de gerar energia, criou novas possibilidades de desenvolvimento", avalia Martinez. Essa multiplicidade de usos, no entanto, convive com conflitos, principalmente em relação à variação do nível da água, dita pelos especialistas como essencial para o funcionamento do sistema elétrico. Usina hidrelétrica de Furnas, em São José da Barra Divulgação / Axia Energia 🔎A cota 762 do Lago de Furnas representa o nível mínimo de 762 metros acima do nível do mar, defendido por políticos, empresários e piscicultores como essencial para garantir o "uso múltiplo" das águas. Essa marca é crucial para o turismo, piscicultura, navegação e atividades econômicas dos municípios mineiros, garantindo beleza cênica e navegabilidade, sendo um pleito histórico da região. A chamada cota 762 virou símbolo da disputa entre o uso econômico do lago e a necessidade energética do país. Mas manter Furnas sempre cheio, explicam especialistas, compromete a eficiência do sistema. “Eu acho importante que as pessoas saibam que essa variação do nível do lago veio para ficar. Ao longo dos anos, vamos ver o reservatório encher e esvaziar repetidamente, e isso faz parte do processo. Foi assim que Furnas foi pensada. Fixar uma cota, usando um termo mais direto, é aleijar o empreendimento. Isso tem um custo financeiro e ambiental enorme para o país e para o mundo, porque acaba exigindo o uso de petróleo", afirma Martinez. ⚡ A usina de Furnas tem grande capacidade instalada, com mais de 1.200 MW de potência; 🔌 Isso não significa que ela gere energia o tempo todo nesse nível; 🧭 Quem decide quando e quanto Furnas gera é o Operador Nacional do Sistema (ONS); 📊 No passado, Furnas já representou cerca de 30% da energia gerada no país, mas hoje essa participação é bem menor. Construída no fim da década de 50 e início de 60, Furnas foi a primeira usina a superar 1.000 megawatts de potência Divulgação / Axia Energia O diretor de Operação e Manutenção da Axia Energia no Sudeste, Francisco Arteiro, reforça a importância estratégica do reservatório. Segundo ele, a relevância do lago só cresceu com o tempo. “Furnas é um dos principais reguladores de água do país. A água estocada aqui vale muito mais porque gera energia em várias usinas a jusante. Quanto mais usinas foram construídas depois de Furnas, maior ficou o valor dessa água", afirmou. Essencial mesmo com outras energias Mesmo com o avanço da energia solar e eólica, que fez com que a hidrelétrica mudasse seu perfil nos últimos anos, Furnas continua sendo peça-chave do sistema elétrico. Além da geração, que acontece principalmente à noite, quando as usinas eólicas e solar não estão em operação, a usina atua na estabilização de tensão, algo que fontes intermitentes não conseguem fazer sozinhas. Usina hidrelétrica de Furnas, em São José da Barra Divulgação Axia Energia “As hidrelétricas garantem estabilidade ao sistema. Mesmo quando não estão gerando energia, ajudam a manter a qualidade da eletricidade. A importância de Furnas não vai mudar, porque ela é um dos principais reservatórios de cabeceira do país. Mesmo que no futuro passe a funcionar mais como um estoque estratégico, seu papel continuará sendo central", explica Francisco Arteiro. Ainda segundo Arteiro, o que pode mudar é o perfil da matriz elétrica, com mais energia eólica e solar, desde que haja expansão do sistema de transmissão. ☀️ Durante o dia, o Brasil passou a usar muito mais energia solar; 🌬️ Quando venta, cresce também a participação da energia eólica; 🌞➡️ Com isso, Furnas gera menos energia durante o dia; 🌙⚠️ Entra mais em funcionamento à noite ou em momentos críticos do sistema. Hidrelétrica de Furnas, em São José da Barra Divulgação / Axia Energia "O país deve construir cada vez menos hidrelétricas com grandes reservatórios, porque eólicas e solares são mais baratas e fáceis de licenciar, enquanto novos projetos hidráulicos enfrentam grandes desafios ambientais”, afirma Francisco Arteiro, diretor de Operação e Manutenção da Axia Energia no Sudeste. Criada em meio a crises, controvérsias e sacrifícios sociais, Furnas segue cumprindo o papel para o qual foi concebida: armazenar água para garantir luz. Aquilo que nasceu como uma frase de protesto acabou se confirmando na prática. Mais de 60 anos depois, Furnas continua sendo uma das grandes caixas d’água do Brasil. 🌧️ O lago de Furnas guarda água quando chove; 🚱 Essa água é usada quando chove menos; 📈 Também é usada quando o consumo de energia aumenta; 🔋💧 Por isso, Furnas funciona como uma grande bateria natural do sistema elétrico brasileiro. “A Usina de Furnas continua tendo um papel extremamente importante. É uma central geradora muito bem localizada e com uma estrutura física robusta, projetada para durar cerca de 300 anos. Não se trata de uma usina antiga, mas de uma usina madura, que vem sendo modernizada continuamente. O reservatório deve seguir operando por mais 250 a 300 anos e, durante todo esse período, continuará abastecendo a população com energia renovável", ressaltou o professor Martinez. Infográfico - Usina de Furnas em números Arte g1 Travessia das águas Quase 20 anos depois, a "Travessia das Águas" está de volta às telas da EPTV a partir da próxima segunda-feira (30). Ao longo de duas semanas, uma expedição jornalística em parceria com o g1 Sul de Minas vai percorrer o Lago e a Barragem de Furnas, construída entre os anos de 1958 e 1963, para mostrar as principais histórias ligadas a uma das maiores usinas hidrelétricas do país. A expedição foi planejada em duas etapas, com o objetivo de percorrer os dois grandes braços que alimentam a Usina de Furnas, localizada em São José da Barra (MG). g1 e EPTV fazem expedição 'Travessia das Águas' pelo Lago de Furnas, o maior reservatório do Sudeste Oswaldo Henrique/EPTV Na primeira semana, a equipe parte do Rio Verde e segue pelo Rio Sapucaí, passando por cidades como Três Pontas, Fama, Alfenas e Carmo do Rio Claro. Já na segunda semana, o trajeto será pelo Rio Grande, cruzando os municípios de Boa Esperança, Cristais, Aguanil, Guapé, Pimenta, Formiga e Capitólio. Mais do que contar a história do lago, a proposta da Travessia das Águas é destacar as pessoas que vivem, trabalham e tiram o sustento da água. Para isso, a EPTV reuniu toda a sua equipe de jornalismo, em parceria com o g1 Sul de Minas, que além de reportagens especiais, terá um diário de bordo em Tempo Real com os bastidores da expedição. Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas